quarta-feira, 27 de abril de 2011

Nordestinos por eles mesmos

“Nordestinos por eles mesmos” é uma série de depoimentos de nordestinos que vivem ou viveram em São Paulo. Acompanharemos, sob a ótica do próprio nordestino, temas ligados à cultura, ao preconceito e como foi a receptividade de São Paulo a essas pessoas.


Para a coleta de tais depoimentos divulgamos via e-mail a seguinte mensagem:


Olá a todos!

Você é nordestino? Conhece alguém que veio do Nordeste? Colaborem com o nosso blog enviando seu depoimento para cmt1986@gmail.com ou regiane.alvesdeassis@yahoo.com.br!

Depoimento para o blog “Consulado nordestino”

Conheça o blog:
http://consuladonordestino.blogspot.com

As questões abaixo são apenas um roteiro para o depoimento. Sinta-se à vontade para escrever sobre questões e/ou assuntos que considere importante ou que lhe interessem:

Qual o seu nome e sua cidade natal?

Quando você chegou a São Paulo? Por que veio?

Qual foi sua primeira impressão ao chegar a São Paulo? Correspondeu às suas expectativas?

Como foi recebido?

Já sofreu algum tipo de preconceito por ser nordestino?

Como você se vê? Como vê a cultura nordestina? Como vê a contribuição do nordestino e de sua cultura em São Paulo?

Norteados por essas questões, nossos “depoentes” refletiram acerca dos temas propostos e nos enviaram seus textos.

Bandeira de Pernambuco. Fonte: São José do Egito

Iniciaremos esta série com o depoimento da pernambucana Glaucia Maria:

"Qual o seu nome e sua cidade natal?
Glaucia Maria Torres Calazans
Nasci em Palmares, zona da mata, interior de Pernambuco.
Conhecida como “Pérola do Uma” o mesmo rio Uma que, ao transbordar pelo excesso de chuvas derramadas sobre o seu leito em junho de 2010, destruiu a cidade e levou muito da minha história. A praça onde em criança, eu ia aos domingos admirar um jacaré confinado num tanque... não se falava de proteção ao meio ambiente, e eu adorava vê-lo ao sol dos domingos após a obrigatória missa da manhã!
Aos 11 anos de idade fui para Recife que me adotou como filha da terra e lá cresci, estudei, casei e nasceu minha primeira filha. A bela Recife, Veneza brasileira. Ali, os Rios Beberibe e Capibaribe cortam a cidade mauriceia. Isto mesmo. Maurício de Nassau, o príncipe holandês, se encantou por ela, plana, estendida para o Atlântico, como uma namorada submissa.
Nassau construiu pontes, edifícios, e embelezou a cidade dos mascates, antes um simples aglomerado em torno do porto. Ainda hoje, caminhando por suas ruas, pode-se observar os passos dos invasores, ávidos pela riqueza do ouro doce: O açúcar!
Só mais um pouco de Recife: além da beleza natural, das pontes, dos rios, do sol, as ruas têm nomes lindos, como disse Manoel Bandeira em “Evocação de Recife”

“Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido”

Quando você chegou a São Paulo? Por que veio?
Cheguei a São Paulo em janeiro de 1979. São 32 anos...
Vim porque meu marido, militar da Aeronáutica, foi transferido. No começo, quando mal cheguei, nos dias de sol pela manhã, eu acordava e esquecia que estava aqui e, num primeiro impulso, pensava em sair e ir visitar minha mãe... Via o sol e pensava que estava quente lá fora. Saia com roupa leve e entrava correndo para me agasalhar. Sempre achei que sol não combina com frio...
Hoje eu amo São Paulo, a segunda cidade a me adotar. Tenho dois filhos nascidos aqui, construí toda uma vida ao longo desses 32 anos e creio que ficarei até o fim...

Qual foi sua primeira impressão ao chegar a São Paulo? Correspondeu às suas expectativas?
Acho que já deu pra perceber: estranhei o frio de plano! Depois me impressionei com a grande avalanche de gente subindo e descendo a Ladeira Porto Geral... a Rua 25 de Março! Meu Deus é gente demais!
Adorei a Praça da Sé e sua mistura de gente, indigente, fervilhante, imponente... Imponente Igreja da Sé!
Fui vendo São Paulo, me apaixonando, me enfeitiçando. “Alguma coisa acontece no meu coração, só quando cruza a Ipiranga e Av. São João”... A torre do Banespa era meu farol. Para lá me guiava quando perdida no centro de São Paulo. E recomeçava a partir de lá.

Como foi recebido?
Não posso dizer que fui mal recebida. Comecei a trabalhar no mês seguinte, dando aulas de História. Fui contratada depois de um teste onde eu deveria dar aula à um grupo de professores da escola pretendida. Os alunos estranhavam meu sotaque, faziam um pouco de farra com meu jeito de falar, mas nunca me senti ofendida ou desrespeitada. O problema mais grave veio de uma colega professora (que deveria ter bom senso) descendente de japoneses tão bem aceitos aqui. Ela falou que no Japão, os nascidos na Ilha de Okinawa, são considerados inferiores, assim como os nordestinos, por isso, o pai dela ficou revoltado com a irmã que casou com um original daquela ilha.

Já sofreu algum tipo de preconceito por ser nordestino?
Só me lembro do caso com a professora que falei acima. No mais, nada grave para contar, nada que me ferisse ou me magoasse.

Como você se vê?
Nordestina orgulhosa das raízes.

Como vê a cultura nordestina?
Bela. Valorizo cada traço da minha cultura, dos meus hábitos, da minha história. Conservo meu sotaque, amo as tradições da minha terra mas amo também a cidade que me recebeu e me adotou, São Paulo.

Como vê a contribuição do nordestino e de sua cultura em São Paulo ?
Certamente, contribuímos muito. Os nordestinos que para cá vieram, na maioria, vieram fugindo da pobreza de lá, em busca de oportunidades. Como não tinham instrução acadêmica, assumiram os postos de trabalhos mais simples e, quase sempre, construíram, casas, prédios, escolas, metro, sei lá que mais.
Eu também contribuí com Sampa! Dei aula por 25 anos, ajudando na formação de jovens e adultos. Hoje trabalho na Prefeitura de São Paulo, fazendo fiscalização de uso do solo e posturas urbanas. Faço meu trabalho com amor e sou respeitada no meu ambiente de trabalho. Estou atuando na Subprefeitura Cidade Tiradentes, bairro pobre da periferia e me alegro de ver como o bairro cresceu e se desenvolveu nesses oito anos em que estou trabalhado aqui. Sei que contribuí e muito para melhorar esse lugar e fico feliz.
Desculpe-me se me alonguei demais porém não me surpreendo. Meu professor de prática jurídica já me disse que sou prolixa! Aliás, é típico do meu povo falar muito. Alguém já disse, como fala esse povo do nordeste!

Beijos e obrigada pela oportunidade".

Muito obrigada Glaucia pelo belo e emocionado depoimento!

6 comentários:

  1. Meninas amei!
    Que poeta esta Glaucia, quanta veracidade nas palavras que escreve, mais parece uma poesia quando cita sua cidade, do que um depoimento.
    Como é bom trazer saudades e lembranças boas do lugar onde se nasceu e agora com um blog especial para se divulgar as emoções.

    Parabéns de novo!

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  2. Muito legal a entrevista da Glaucia meninas, parabéns!!!

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  3. prolixa sim, no sentido luxuoso das minúncias, que atualmente se comprovam muito importantes, para a preservação da nossa memória...
    parabéns pra vcs.

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  4. quão profundo esta história da Glaucia e mostra com clareza que o nordestino é sim bem vindo á São Paulo e o mais importante é que não deixa suas raizes para tras e tem muito orgulho do seu passado,parabens pelo depoimento Glaucia e parabens meninas por abrir espaço para que isso acontecesse.bjs Flavia Costa

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Li o depoimento da Gláucia "escutando" a sua voz, com aquele sotaque bom se ouvir do nordestino. Tive o prazer de trabalhar com ela e digo, sem a menos sombra de dúvida: a melhor professora de História que conheci.
    abraços.

    Sandra Umbelina

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